Será que nada mudou desde 1930?
O preconceito sempre é irmão gemeo da ignorância.
Se tem um assunto que quase todas as pessoas fazem cara feia quando escutam é este, o eletrochoque. Talvez por ter sido relacionado a torturas em todos os regimes de excessão ou mesmo a serviços policiais de informação, coube a esta modalidade terapêutica uma antipatia sem igual. A informação que predomina é a de que o individuo submetido a tal procedimento o fêz sem qualquer informação, clandestina e criminosamente, como se tivesse que ser castigado e sentir bastante dor sabe lá porque. O ECT usa anestesico,´portanto não há dor, a voltagem é baixa e faz uso de relaxante muscular, não sendo portanto, tortura. Sempre me questiono porque não se tem a mesma fantasia a respeito das cardioversões - tratamento de choque para reversão de parada ou arritmias cardíacas - procedimento sempre heróico e de inquestionável indicação médica, já que ambos os procedimentos utilizam corrente elétrica de baixa voltagem em situações bastante específicas? Este tratamento, o ECT, foi introduzido em 1930, época em que não existiam medicamentos antidepressivos ou antipsicóticos e se buscava alguma forma de diminuir o sofrimento dos doentes mentais. Paralelo a isso, também se utilizava a cirurgia cerebral, que separava os hemisférios cerebrais para que a pessoa parasse com suas loucuras, a transformando em brócolis na maioria das vezes. Com o aparecimento dos medicamentos antipsicóticos, principalmente a Clorpromazina na década de cinquenta é que o eletrochoque passou a ser questionado. Claro, é óbvio que se temos uma tecnica cirurgica melhor, porque utilizar uma antiga? Não é o que está ocorrendo com as cirurgias por vídeo, sem aquelas grandes incisões que marcavam as pessoas para sempre com horrendas cicatrizes? O que acontece é que o ECT ( eletroconvulsoterapia ou eletrochoque ) tem indicações muito precisas. Utilizamos quando os tratamentos convencionais não estão funcionando e se tem um risco grande de intoxicação por altas doses de vários medicamentos, depressões refratárias onde o individuo corre risco de morrer de inanição ou mesmo de cometer suicídio e nas Esquizofrenias catatônicas, onde a imobilidade se não revertida levará o individuo a morte. Foi utilizado inadequadamente, até com o falso nome de sonoterapia em muitas clinicas, isto é verdade e deve ser repudiado.
Atualmente se utiliza muito pouco o ECT, mais pelo grande preconceito do que pelos riscos aferidos a técnica. A propósito esta técnica foi desenvolvida, com a exigência da presença de um anestesista durante o procedimento junto ao psiquiatra ou clinico. Deve existir uma espécie de sala de ECT, com toda a aparelhagem necessária na presença de alguma necessidade como por exemplo material para entubação caso haja parada respiratória. Aliás, estudos demonstram que os acidentes durante o ECT são em menor numero do que os dos psicofármacos, estes usados como verdadeiras panacéias para todos os problemas, desde impotência até mau humor. Pode inclusive ser utilizado em pessoas grávidas que corretamente monitoradas, não correrão riscos que não os de praxe. E muitas vezes os medicamentos que estas mães necessitam usar, litio por exemplo, são extremamente teratogênicos ( mutações ) para os fetos. O que é pior ou melhor só o medico, seu paciente com seus familiares poderão discutir e decidir.
Não quero defender o ECT, os trabalhos científicos o fazem muito melhor do que eu. O que quero fazer é informar sobre este método terapêutico que tem lá suas vantagens e desvantagens, como qualquer outro. É importante notar que estamos na década do cérebro, que cada vez mais entendemos que tudo o que fazemos, pensamos ou sentimos tem representação neuroquimica e aprofundar o conhecimento, diminuindo o preconceito é um caminho bastante interessante para tentar entender e tratar esta grande babilonia que ainda é o ser humano. Quanto a funcionar ou não, é para isso que existem os protocolos medicos, que são conjuntos de procedimentos considerados eficazes para tratamentos de doenças. O resto é desconhecimento ou corporativismo.
Carlos Ritter

















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